Artigos e Trabalhos
POR QUE O 1º DE ABRIL É O DIA DA MENTIRA
Colaboração Ir.:
Ary Nascimento
A\R\L\S\
31 DE MARÇO Nº 152
Primeiro de abril, é o dia da mentira. E olha que isso, pelo menos isso, é uma verdade no mundo inteiro. Do norte ao sul, do Ocidente ao Oriente, a data é "celebrada" igualmente pelo planeta: brincadeiras, notícias falsas, gozações... muda só o senso de humor, mas a necessidade de pregar uma peça no incauto que se esqueceu da data é a mesma. Quase tão popular quanto o Natal, o primeiro de abril. E não é de hoje.
Há muitas explicações sobre a origem do dia da mentira. A mais convincente diz que a brincadeira surgiu na França, em 1564, no reinado de Carlos IX, o ano-novo era comemorado em 25 de março, com a chegada da primavera.
As festas, que incluíam troca de presentes, duravam uma semana, terminando a 1º de abril. Mas, em 1564, com a doação do calendário gregoriano, o rei Carlos IX decidiu que o ano novo deveria ser comemorado mesmo em 1º de janeiro. Os franceses que resistiram à mudança, ou a esqueceram, mantiveram o antigo costume. Os gozadores começaram a ridicularizar esse apego enviando aos conservadores presentes estranhos e convites para festas inexistentes. Com o tempo, a brincadeira firmou-se na França, de onde, duzentos anos depois, migrou para a Inglaterra e daí pra o mundo.
Outro costume muito popular nesta data são as notícias falsas de jornais. A idéia surgiu também na França, por volta do século XIX, se tornou-se muito comum em outros paises, e hoje não há grande veículo de comunicação do mundo que já não tenha publicado uma brincadeira para homenagear a data. Vejamos alguns primeiros de abril pregados pela imprensa mundial, conforme relata a revista Isto é, no 1488, edição de 8 de abril de 1998:
Em 1o. de abril de 1998 A Rádio Medi, de Tânger, no Marrocos, noticiou que o Brasil não iria participar da Copa do Mundo porque o dinheiro da seleção seria usado na luta contra o incêndio em Roraima. Diego Maradona, ex-capitão da seleção Argentina de futebol, é o novo técnico da seleção do Vietnã. Esta noticia foi publicada nos principais jornais vietnamitas. Ao deixar o Senegal, o presidente americano Bill Clinton seria acompanhado de uma comitiva formada pelos primeiros 50 senegaleses que fossem à embaixada para pedir visto de entrada nos EUA. Assim informou o jornal Le Soleil, do Senegal. Centenas de senegaleses acreditaram na mentira e correram para a embaixada americana."
Uma das mais famosas mentiras foi publicada pela revista inglesa New Science, uma das mais conceituadas publicações científicas do mundo e a vítima foi uma também conceituada revista brasileira. Na primeira semana de abril de 1983, a revista publicou o resultado de uma pesquisa que teria conseguido criar um híbrido entre o boi e o tomate, batizado de boimate. A equipe de redatores da revista se esforçou tanto para fazer a história estapafúrdia parecer verdade que no dia seguinte dezenas de publicações pelo mundo republicaram a história, confiando na credibilidade da New Science.
Boi mate - " uma nova fronteira científica"
O "fruto da carne", derivado da fusão da carne do boi e do tomate, batizado com o sugestivo nome de boimate, constituiu-se, sem dúvida, no mais sensacional "fato científico" de 1.983, pelo menos para a revista Veja, em sua edição de 27 de abril. Na verdade, trata-se da maior "barriga" (notícia inverídica) da divulgação científica brasileira.
Tudo começou com uma brincadeira – já tradicional – da revista inglesa New Science que, a propósito do dia 1º de abril, dia da mentira, inventou e fez circular esta matéria.
A fusão de células vegetais e animais entusiasmou o responsável pela editoria de ciências da Veja que não titubeou em destacar o fato. E fez mais: ilustrou-o com um diagrama e entrevistou um biólogo da USP, para dar a devida repercussão da descoberta.
Para a revista, a “experiência dos pesquisadores alemães, porém, permite sonhar com um tomate do qual já se colhia algo parecido com um filé ao molho de tomate. E abre uma nova fronteira científica".
O ridículo foi maior porque a revista inglesa deu inúmeras pistas: os biólogos Barry McDonald e William Wimpey tinham esses nomes para lembrar as cadeias internacionais de alimentação McDonald´s e Wimpy´s. A Universidade de Hamburgo, palco do "grande fato", foi citada para que pudesse ser cotejada com "hamburguer" e assim por diante. Mas nada adiantou.
A descoberta do engano foi feita pelo jornal O Estado de S. Paulo que, após esperar inutilmente pelo desmentido, resolveu "botar a boca no mundo" no dia 26 de junho.
O espírito gozador e, mais surpreendente às vezes até irado do brasileiro, no entanto, não deixou por menos. Durante o intervalo entre a matéria da Veja e o desmentido do Estadão, cartas e mais cartas chegaram às redações.
Um delas que maliciosamente, assinou " X-Burguer, Phd, Capital", lembrava que no Brasil já haviam sido feitas descobertas semelhantes: o jeribá, cruzamento de jabá com jerimum, ou o goiabeijo, cruzamento de gens de goiaba, cana-de-açúcar e queijo, e adiantava que seus estudos prosseguiam para criação do Porcojão ou Feijoporco, cruzamento de porcos com feijões que ele esperava dar como contribuição à tradicional feijoada paulista.
Domingos Archangelo escreveu ao Jornal da Tarde uma carta colérica contra a "a violação das leis naturais". Segundo ele, " do alto dos meus 76 anos, não posso ficar calado ante tal afronta às leis divinas. Boi nasceu para pastar, para puxar os saudosos carros do interior e para nos oferecer sua saborosa carne. E tomate, além das notórias qualidades que lhe imputam na cozinha, serve também para ser arremessado à cabeça de quem perpetra tal monstruosidade e, também, dos que incentivam tais descobertas".
Francisco Luís Ribeiro, outro leitor da Capital, relata outros cruzamentos, além do boimate, que deram certo e cita experiências para "cruzar pombo-correio com papagaio, para o envio de mensagens faladas".
Finalmente, com o objetivo de pôr fim ao caso que já divertia as redações, a revista Veja publicou, na edição de 6 de julho, ou seja, depois de dois meses, o desmentido: " tratou-se de lastimável equívoco". E justificou, explicando que é costume da imprensa inglesa fazer isso no dia 1º de abril e que, desta vez, havia cabido à revista entrar no jogo, exatamente no "seu lado mais desconfortável".
Fonte: Revista “ISTO È”
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